ARTIGOS DE FÉ DO GAÚCHO
Neste conto, o narrador dirige-se aos seus leitores afirmando que muitas pessoas existem no mundo sem saber, ao certo, o real sentido de sua existência. Outros, contudo, conseguem apreender muitos ensinamentos da escola da vida já muito tardiamente. Ele, inclusive, inclui-se nesse agrupamento de viventes. O grande objetivo das próximas páginas consiste em fornecer vinte e um conselhos ao leitor imediato da obra, informando-o que tais sugestões são geralmente oriundas dos conhecimentos práticos da vida. Além disso, a voz que se pronuncia no texto especifica que os comentários em forma de provérbios arrolados abaixo, são apenas um pequeno grupo dentre inúmeras outras que poderiam ser referidas. As mencionadas considerações, dispostas logo a seguir, foram extraídas diretamente do livro Contos gauchescos (1912), da autoria de Simões Lopes Neto (Conferir referências bibliográficas):
• 1º. Não cries guaxo: mas cria perto do teu olhar o potrilho pro teu andar.
• 2º. Doma tu mesmo o teu bagual: não enfrenes na lua nova, que fica babão; não arrendes na miguante,
• que te sai lerdo.
• 3º. Não guasqueies sem precisão nem grites sem ocasião: e sempre que puderes passa-lhe a mão.
• 4º. Se és maturrango e chasque de namorado, mancas o teu cavalo, mas chegas; se fores chasque de
• vida ou morte, matas o teu cavalo e talvez não chegues.
• 5º. A maior pressa é a que se faz devagar.
• 6º. Se tens viajada larga não faças pular o teu cavalo; sai ao tranco até o primeiro suor secar; depois ao
• trote até o segundo; dá-lhe um alce sem terceiro e terás cavalo para o dia inteiro.
• 7º. Se queres engordar o teu cavalo tira-lhe um pêlo da testa todas as vezes da ração.
• 8º. Fala ao teu cavalo como se fosse a gente.
• 9º. Não te fies em tobiano, nem bragado, nem melado; pra água, tordilho; pra muito, tapado; mas pra
• tudo, tostado.
• 10º. Se topares um andante com os anelos às costas, pergunta-lhe — onde ficou o baio?...
• 11º. Mulher, arma e cavalo do andar, nada de emprestar.
• 12º. Mulher, de bom gênio; faca, de bom corte; cavalo de boa boca; onça, de bom peso.
• 13º. Mulher sardenta e cavalo passarinheiro... alerta, companheiro!...
• 14º. Se correres eguada xucra, grita; mas com os homens, apresilha a língua.
• 15º. Quando dois brincam de mão, o diabo cospe vermelho...
• 16º. Cavalo de olho de porco, cachorro calado e homem de fala fina… sempre de relancina...
• 17º. Não te apotres, que domadores não faltam...
• 18º. Na guerra não há esse que nunca ouviu as esporas cantarem de grilo...
• 19º. Teima, mas não apostes; recebe, e depois assenta; assenta, e depois paga...
• 20º. Quando ‘stiveres pra embrabecer, conta três vezes os botões da tua roupa...
• 21º. Quando falares com homem, olha-lhe para os olhos, quando falares com mulher, olha-lhe para a
boca... e saberás como te haver...
DEVE UM QUEIJO!...
Com o foco narrativo articulado em Terceira Pessoa, um narrador onipresente contextualiza os leitores acerca dos usos, dos costumes, dos hábitos e dos comportamentos de um velho chamado Lessa. Homem de pequena estatura, ruivo, com a face avermelhada, cuja pouca fala apontava para uma pessoa sisuda: de poucos discursos, manifestava-se apenas no essencial, embora de muito boa índole, um excelente caráter e uma ótima pessoa. Com ele, palavra oral empenhada possuía mais valor do que papel feito por tabelião. Em certa ocasião, o velho Lessa cavalgava nas proximidades do Passo de Centurião. Por aquelas paragens, havia uma venda muito conhecida, local de pouso dos tropeiros, dos andarilhos, da peonada da região. O dono do estabelecimento era um castelhano de cabelos longos, bonachão e muito falador. Lessa, homem conhecido e apreciado nas redondezas, conforme se aproxima da venda escuta de alguns peões que, naquele dia, todos comeriam queijo de graça. Lessa apeou do cavalo na entrada do estabelecimento comercial. Atou o cavalo e dobrou os pelegos ao meio, em virtude da quentura do sol. O bolicheiro, por sua vez, saúda o visitante com entusiasmo, estimulando que o mesmo compre um queijo. Mesmo um tanto quanto contrariado, Lessa aponta um queijo e solicita que o empregado, que estava atrás do balcão, sirva-o. Lessa divide o queijo em pequenos pedaços e oferece a todos os presentes. Ninguém aceita. Então, o castelhano é convidado a desfrutar de uma fatia. Ao comer, este ainda oferece aos demais, dizendo-lhes que aproveitassem porque já estava pago. Em seguida, o velho cavaleiro, muito calmo e paciencioso, ordena que o cabeludo coma mais um pedaço, e outro, e outros tantos. O dono da venda, que estava munido de algumas armas, dentre as quais um facão, é surpreendido no instante em que Lessa toma-lhe o facão e inicia uns planchaços em suas orelhas, nas costas, em todo o corpo do comerciante. Depois da surra, este acaba fugindo. Um dos presentes no bolicho, que havia reclamado que uma panela ali comprada apresentava um defeito, comenta que, por fim, alguém havia enfrentado o castelhano. Muito calmamente, o bondoso cavaleiro ainda indaga o empregado acerca de seu almoço já encomendado: onde estavam o café, a lingüiça e os ovos?
Temáticas: a honestidade do homem campeiro; o valor da palavra do gaúcho; um discurso mal enunciado pode trazer comprometimentos.
PENAR DE VELHOS
Afirma o narrador, em Terceira Pessoa, que conheceu, desde muito pequeno, um menino de nome Binga Cruz. Acrescenta dizendo que igualmente obteve conhecimento sobre seu fim trágico, ocorrido por volta de seus doze anos. O pai havia ganho um cavalo picaço, muito bonito e são, das quatro patas. Objetivando apresentar uma postura de aproximação com seus leitores, através de um diálogo direto, a narração direciona-se para um mês de dezembro, muito caloroso, com um sol abrasador, mesmo que no tempo aparecesse muitas trovoadas. Em algumas restingas, situadas no meio dos roçados, enxergava-se a cabeça do pequeno moleque, que estava a atentar caçar ovos de galinhas, de tico-ticos, de canarinhos, de corruínas, dentre outras aves. Quem olhasse de longe, percebia uma verdadeira festa de penas coloridas. Neste instante, Binga Cruz nota que, do outro lado da cerca, havia um ninho de avestruzes, sendo que os animais percorriam despreocupadamente o local. O garoto pretende apanhar os animais, mas não consegue ainda nesta primeira tentativa porque o macho do bando encaminha os demais, de modo rápido, para o lado do galpão. Ao direcionar o olhar para os campos, Cruz averigua a presença de um açude, bem no meio da roça. Então, imagina que conseguirá apanhar os animais com maior propriedade caso tivesse montado no cavalo picaço, recém ganho pelo pai. Sem contar ao velho, Binga Cruz empresta ocultamente o animal e põe-se a tal caçada. Depois de muito sacrifício, mesmo que a maioria das avestruzes já tivesse escapado do seu horizonte de observação, um deles mostra-se como uma fácil presa. O menino obtém a posse da ave, mesmo que por pouco tempo em virtude de que ela conseguirá escapar. Decepcionado, Cruz volta para a morada dos pais e guarda o cavalo sem nada contar a ninguém. Dias depois, a graxa dos rins do picaço desanda e o animal desfalece no chão. O pai, por sua vez, estava muito bravo. O filho, honestamente, resolve contar a empreitada de dias anteriores. Quando este vê um rabo-de-tatu arrodear no ar, temendo a imensa surra que levaria, corre em direção a um matungo encilhado e andeja pelas estradas do rincão. O pai ainda grita com ele, orientado para que o filho parasse. Nunca mais se soube do paradeiro de Binga Cruz. Realizaram-se charqueadas, cavalgadas pelas regiões a fim de procurá-lo. Todas as iniciativas foram fracassadas. O velho, com o passar dos tempos, transforma-se. Torna-se silencioso, introspectivo, sem direcionar muitas palavras as pessoas com as quais convivia. Nas marcações do gado, acompanhava de longe, ficando apenas na porteira. Pitava muito e estendia o olhar por cima dos solitários campos. Quando a peonada iniciasse rasguidos de violão, o dono da casa já ordenava que os alaridos se desfizessem. Sua mulher muito injuriou com a ausência do filho. Não estendia palavras, mas se sabia que o sofrimento interior era arrasador. Sempre que servia as refeições para as pessoas da casa, ou mesmo para os homens que habitavam a pousada, aproximava-se da mesa com os olhos inchados, lacrimejantes. Reuniu-se todos os pertences de Binga Cruz em um canto da sala: os arreios, o laço, os cavalos de bois, os bois de ossos, que serviram para os momentos de lazer e de entretenimento, na infância. Os homens mais antigos que por ali passavam e pousavam sabiam do ocorrido e desejavam, um dia, encontrar o menino para o trazer de volta ao rancho de seus pais. A senhora-dona finou-se até morrer. Seu caixão, conduzido a léguas de casa ao cemitério do povoado, era muito leve. Também que pecados poderia ter uma mulher tão branda, tão caridosa, tão santa? O destino do homem foi o mesmo. Um tempo antes, repassou todos os seus bens à igreja, ministrada por um padre gringo, chegado não fazia muito por aquelas paragens. Não deixou o pai de Binga Cruz ninguém apadrinhado com seu dinheiro. O narrador ainda questiona-se quanto ao desaparecimento do menino, contando aproximadamente com doze anos que, certamente, daria uma surra naquele padre oportunista. O contador da história, distanciando-se da postura assumida pelo vigário, comenta que ajudaria atar o padre gringo para observar a surra.
Temáticas: a não submissão aos costumes sociais; a saudade dos pais pelo desaparecimento do filho; crítica ao ser humano oportunista.
O ANJO DA VITÓRIA
Em Primeira Pessoa, o narrador-personagem compartilha uma história ocorrida quando contava com aproximadamente dez anos. Trata-se de uma batalha de Ituzaingo, no passo do Rosário, para diante de São Gabriel, do outro lado do banhado de Inhatium que, de acordo com seus próprios conhecimentos, significa mosquito. A voz narradora apresenta-se como sendo um menino da idade supramencionada, sobrinho de um dos soldados da Revolução. Estava o bando de acampamento armado. Embora acreditassem que seu posicionamento estratégico fosse favorável para apunhalar o inimigo de supetão, os outros, sim, é que estavam em situação vantajosa. À noite, no desfrutar de um largo momento de sossego no acampamento, enquanto que alguns gaúchos carneavam, outros tocavam suas violas ou mesmo repousavam. O padrinho e o sobrinho encilham seus cavalos, mesmo que seja apenas para montar e ficarem sentados sobre o pelego, para uma breve sesteada. Assim estavam, absortos em pensamentos mansos, quando o menino-narrador ouve, ao longe, alguns rufares de tambor, de cornetas, como que a anunciar algum evento grandioso. Nem bem puderam movimentar-se, os castelhanos já estavam em cima do acampamento. A ferro e a fogo, conseguem defender-se temporariamente. O padrinho, juntamente com o guri, escapavam às trovoadas de pólvoras, deslocando-se até um barracão onde estava o general José de Abreu. Abreu, conhecido popularmente como o Anjo da Vitória, tratava-se de um homem muito temido por todos da redondeza, inclusive pelos castelhanos que, ao escutar seu nome, alçavam-se em disparada. Este general, muito furioso, pensava introspectivamente no que poderia fazer com vistas a reverter aquela situação desprivilegiada para os seus, na batalha. Enquanto isso, adentra no recinto outro general, Bento Gonçalves. Amanhecia. Os homens montaram seu plano estratégico e colocaram-se próximos ao local de combate. Os castelhanos, em função de que o sol já abrasava o capim, colocaram fogo nele com a pretensão clara de queimar os carroções que por ali estavam. A fumaça fez com que diminuísse a visibilidade daqueles gaúchos, ainda que os pelotões já estivessem montados, prontos para a disparada. Ouviu-se alguns rumores e, em seguida, os ferros tiniram. O chiripá do menino esvoaçava contra o vento. O padrinho demonstrava seu denodo e sua galhardia frente os inimigos. Entre um grande número de mortos e de feridos, quando a fumaça já ia diminuindo, foi possível perceber que o pelotão dos castelhanos caminhava em direção à coxilha. Eles haviam armado uma emboscada para que cavaleiros que defendiam o mesmo ideal acabassem matando-se uns aos outros. Enquanto lá se iam, os outros, aqui no descampado, choravam suas desgraças e suas tristezas. Depois de tudo acabado, o garoto foi notando os corpos desfalecidos no chão. Encontrou mortos os seguintes homens: o anjo da Vitória Abreu, que ainda segurava sua espada, o general Bento Gonçalves e seu padrinho, cuja mão esfriava gradativamente. O narrador levanta-se e percebe que ali o único sobrevivente era ele mesmo. Monta em um cavalo azulego. O choro mistura-se com o vento. Já cavalgava com aquela idade.
Temática: um menino gauchinho presenciando os contratempos da guerra; a vitória é alcançada com uma boa estratégia.
DUELO DE FARRAPOS
A voz que conduz a contação desta curiosa trama literária contextualiza os leitores dizendo que foi soldado do general Bento Gonçalves. Esta história possui início pelas bandas de Alegrete, no preciso ano de 42, sendo que se estende até 44, já adentrando o interior do Estado, para as pontas do Sarandi, na região de Santana. Na condição de general, Gonçalves dirige, por meio de um decreto, uma convocação para eleição dos deputados, uma vez que eram necessárias a organização de algumas leis e demais assuntos pendentes em virtude de que transcorria a Guerra. Em Novembro do primeiro ano mencionado, Bento Gonçalves fará um pronunciamento em estilo sisudo, durante o qual os presentes, todos em pleno silêncio, apenas sacodem suas cabeças afirmativamente. Isso porque, conforme as palavras do narrador, o governo como um todo prestava uma boa assistência à população em geral e, como não poderia deixar de ser, para os soldados. Todos andavam de fardas novas, os padres com suas batinas reluzindo de novas que estavam, dentre outros aspectos positivos. Paralelamente a vida nos pagos do Sul, existia a Banda Oriental, composta, sobretudo, por Oribe e Rivera. Sempre que necessário, os gaúchos a ela recorriam. Caxias, o maioral dos caramurus, recebia tais notícias com desgosto. Algum tempo depois, surge em Alegrete uma comitiva elegante, bem apresentável, que trazia uma linda mulher. Esta, por sua vez, estava ali apenas a negócios. O general reuniu-se com o Coronel Onofre Pires, dentre outros homens, para recebê-la. O narrador, que apenas acompanhava do lado de fora da porta do gabinete, escutava por ora o vozerio grave dos homens, seguido de uma longa pausa. Em seguida, iniciava-se o discurso de uma voz feminina, ouvida por um grupo de viventes extasiados. Esta figura feminina aportou na cidade fronteira para reclamar o furto de gado e de outros animais, apresentando um conjunto de papéis. Muito tempo decorrido suspeitou-se que a beldade poderia ter sido enviada como representante ou de Oribe ou de Rivera. O general Bento Gonçalves começa a ser denegrido publicamente por meio de discursos e de falatórios diversos. O narrador percebe algumas desavenças geradas entre ele e o Coronel Onofre Pires. Nesse meio tempo, morre Paulino Fontoura. Caxias também se envolve em discursos divergentes. O curioso é que Gonçalves, despreocupadamente, ordena que o narrador apanhe os dois cavalos encilhados, um tostado e outro picaço, e os encaminhe para perto de uma restinga. Enquanto o ordenado assim procede, nota que pela frente vem chegando um vulto de homem. Por trás, também. Eram os dois desafiantes, dispostos para o combate: o general Bento Gonçalves, dono do cavalo picaço, e o Coronel Onofre Pires, proprietário do animal de pelagem tostada. De relancina, o empregado do general observa que, embaixo da cincha de cada animal havia uma espada. As duas eram de proporções exatamente iguais. Os homens munem-se com suas armas. Os cavalos são levados para um lado, sendo que o narrador informado de que deveria cuidar quando houvesse rumores de gente por perto. Inicia a briga entre aquelas lideranças farrapas, que disputavam a atenção daquela lindaça flor que aparecera no pago. Tratava-se de uma luta limpa, de homens de fé. Primeiramente, o general estaqueia seu facão no chão em virtude de que o taco de sua bota havia se despregado da sola. O coronel, então, o aguarda. Logo após, o general fere o braço do outro, aproximando-se dele de mãos limpas e auxiliando-o a estancar o sangue com um lenço. Por fim, o narrador apenas reflete acerca da capacidade que tem uma mulher de provocar discórdia entre dois líderes de mesma ideologia.
Temáticas: tensões provenientes do clima provocado pela guerra; as relações dos sulinos com povos vizinhos; a discórdia entre dois homens de mesma ideologia provocada pelos ares encantadores de uma mulher.
OS CABELOS DA CHINA
O foco narrativo desta trama literária evidencia um narrador testemunha, ou seja, a voz que conduz a história consiste em um personagem do conto, embora seja apenas um personagem secundário. Pretendendo aproximar-se do leitor, nas primeiras linhas este homem diz que, por algum tempo, possuía um buçal e cabresto, utensílios de sua montaria – haja vista que ganhou um cavalo tordilho – feitos de cabelo de mulher, longos e bem pretos. Colocando-se na condição de um ser inocente no caso, o narrador dispõe-se a relatar o caso que envolveu as tranças de uma linda mulher. Mesmo não sendo identificado por nome, este narrador demonstra ser um grande conhecedor das lidas campeiras, dos usos, dos costumes, dos hábitos e das relações sociais dos campeiros. A título de comprovação, ele revela que aprendeu as artes campeiras de um guasqueiro com um chiru muito habilidoso chamado Juca Picumã. Um guasqueiro é aquele que trabalha com couro, confeccionando apetrechos da encilha ou mesmo da indumentária, sejam utensílios que exigem um trabalho ora mais ora menos minucioso. Sempre que morria algum animal no campo, gado ou cavalo, um dos serviços de um guasqueiro é extrair o couro do animal morto, que será transformado na grande matéria-prima para as suas criações. Juca Picumã, além de um guasqueiro de renome, é conhecido por ser um campeiro sabedor dos perigos da lida do campo. Picumã tinha esse apelido porque era um ser maltrapilho, sujo, molambento, que vivia ao redor das fogueiras churrasqueando e cheirando a fumaça. Adorava este momento. Passava, assim, madrugadas inteiras. Este chiru ensinou o narrador a ser um guasqueiro. Depois que ambos possuíam uma certa relação de convivência, o condutor da história observa que Picumã, por mais que fosse um gaúcho que lonqueasse bem o couro, que soubesse esticá-lo como poucos, que cortava, com cuidado, as tiras de couro para os trabalhos mais árduos possíveis, confeccionando verdadeiras obras de arte em couro – muito bem pagas, por sinal – apresentava-se sempre de modo maltrapilho, com roupas esfarrapadas. Houve um dia que o narrador perguntou ao homem o que ele fazia com o dinheiro que recebia. Este, por sua vez, responde que destina as finanças arrecadadas a Rosa, sua linda e querida filha, um amor de pessoa, embora já vá alertando seu interlocutor que a moça não estava disponível para qualquer homem. Depois disso, não tocaram mais nesse assunto. Passou-se um bom tempo. Arrebentou a Guerra dos Farrapos. A voz que narra o texto afirma que se apresentou de bom grado, justamente porque era seu objetivo servir naquele momento e, para sua surpresa, acaba tornando-se companheiro na guerrilha de Juca Picumã. O capitão geral havia destinado uma importante função ao velho guasqueiro: seria ele um comandante com poderes instituídos. Estavam todos há algum tempo andando mato adentro. Este andejar, sempre em estado de alerta em virtude da possibilidade de avistarem um legalista, já durava cerca de dois dias e duas noites inteiras. Então, o capitão percebe o movimento de seus homens em relação às tropas dos caramurus. Comenta o narrador que os farrapos estavam sendo cercados por dois pelotões do exército inimigo, que os encurralavam um contra o outro. Buscando desfazer essa posição estratégica desfavorável, os farrapos contornam, por trás, um dos segmentos, deslocando-os. Desse modo, agora queriam eles abordar os inimigos de forma inusitada. O capitão reúne seus homens para o repasse de suas ordens. O soldado-narrador nota que este líder farrapo muito dialoga com Picumã. Depois, os dois voltam-se para os demais. O capitão, diante de todos, solicita quem daqueles cavaleiros sabia tocam violão. O guasqueiro afirma que o narrador detém essa habilidade. Seu interlocutor, tratando o soldado pelo chamativo de “gurizote”, pretende saber de qual pessoa se trata. O homem indicado demonstra não apreciar este chamamento, embora não possa fazer nada. Picumã e o capitão conversam novamente. Por fim, o líder daquele grupo pronuncia-se ao narrador, dizendo-lhe que foi indicado como um companheiro de Juca para o cumprimento de uma tarefa de alta coragem, sendo pressuposto, pois, sua virilidade. O capitão expõe seu planejamento. Disse ele aos demais que aquela missão não possuía fins somente militares, mas necessitava ele capturar sua china que se refugiara nos braços do capitão do exército legalista.
De acordo com as palavras do homem, Picumã e o narrador deveriam procurar pelo acampamento dos inimigos, simularem serem amigos e capturarem, vivos, os dois: o capitão e a chinoca. O narrador, depois de interrogar brevemente seu locutor, apenas diz que não irá mentir que ele seria um desertor, sugerindo que essa fala seja pronuncia por Juca, haja vista que este não é apenas um mero soldado. Essa atitude foi tomada pelo homem em função de que temia as consequências drásticas que essas ações poderiam produzir. Os homens combinam o modo pelo qual chegarão até o exército dos caramurus. O capitão dá rédeas em seu cavalo, ainda alertando que o Ruivo – capitão inimigo – não era trigo limpo. Aqueles bravos combatentes andejam pelo interior dos matos. Picumã assobia suavemente uma cantiga, como que para anunciar sua presença aos olhos de algum desconhecido. Não muito depois os farrapos encontram um sentinela de nome Marcos. Juca Picumã apresenta-se como sendo alguém que já conhece Ruivo. Depois de obter permissão para aproximar-se dos legalistas, ainda é alertado de que, logo mais, perto de um sangradouro, haveria outro sentinela. Este, que atende pelo nome de Antônio Justino, depois de receber as falsas apresentações dos dois desconhecidos, indica o local específico onde alguns legalistas repousavam, outros fumavam, alguns dormiam, e ainda outra parte preparava o churrasco de todos. A disposição do acampamento apontava para gente relaxada. Um caramuru, responsável pela manutenção do sono do capitão, não permitiu de primeiro que os dois visitantes se apresentassem assim, de relancina. Tiveram que aguardar sentados, escorados em uma velha carreta. Estavam bravos pela situação desencadeada. Dentro da carreta, o narrador esclarece que estava o capitão inimigo, acompanhado de uma china fanfarrona, milongueira, sempre pronta para qualquer tipo de fandango ou arruaça. Esse perfil da mulher já fora comentado por um dos sentinelas anteriores, Antônio Justino. Segundo ele, a marcha dos caramurus atrasava em função de uma chinoca que aparecera nos braços do capitão, bonitona, porém festeira demais. Nem bem os farrapos descansavam, à roda da carreta, quando, de repente, surge um caramuru do interior do mato, gritando aos demais que os farrapos se aproximavam, haja vista que um dos homens responsáveis por cuidar o acampamento estava morto. Zunidos de tiros surgem no ar. Estava feita a gritaria. Iniciava o combate.
Durante o tiroteio, o capitão consegue escapar de dentro da carreta e montar rapidamente em seu cavalo, pelo visto acostumado com arrancadas velozes e perigosas. Enquanto isso, a chinoca tentava sair igualmente da carreta. Ela é pega por um dos dois farrapos: Juca Picumã. Quando a jovem apercebe-se quem era o homem, surpreende-se, gritando: “-Tata”. Era o reencontro de Rosa e seu pai. Juca Picumã pretende surrar excessivamente a filha. O capitão farrapo, quando chega, aprisiona-a. Munido de um facão, segura em duas voltas suas lindas e longas tranças negras, ameaçando degolá-la. Então, Picumã intercede, não permitindo tal tragédia, uma vez que revela ao outro que era o pai dela. O líder farrapo, sentindo-se traído pela china, não deseja soltá-la. Amarra-a firmemente pelos cabelos. O pai, como que querendo salvar sua filha, solta-a dos braços do outro, cortando seus cabelos. Em meio a uma papada de sangue as longas tranças da china, que corriam até o chão, não mais estavam nas mãos do capitão, agora morto. Terminada esta batalha, o narrador contextualiza seus leitores acerca de outros eventos guerrilheiros, sendo que, em um deles, foi condecorado ao posto de sargento. Recebe ele um cavalo tordilho de presente. Um belo dia, Juca Picumã o procura e lhe estende um buçal e um cabresto feito de fios pretos. Certamente ficaria muito bonito no tordilho, lhe afirmou o velho guasqueiro. Tempos decorridos Picumã havia sido pego por cinco homens. Estava ele gravemente ferido. O narrador procura por seu antigo companheiro que, quando o vê, solicita que o mesmo devolva aqueles utensílios campeiros porque haviam sido feitos com as tranças de sua filha Rosa. O condutor da história espanta-se com a informação, embora muito mais com a morte do amigo, que cai desfalecido no chão. Soube ele, no transcorrer dos dias, que Rosa igualmente tivera o mesmo destino do pai. Então, o narrador compareceu no velório, acompanhou todos os ritos funerais e, antes de sepultarem o corpo da chinoca, jogou os apetrechos em sua cova, devolvendo a ela o que Deus tinha lhe dado.
Temáticas: as relações hostis entre farrapos e caramurus causados por ideologias diferentes e pela china, que figura como elemento que enfatiza a rivalidade; usos, costumes e crenças do povo gaúcho.
NO MANANTIAL
História contada por um personagem-secundário, que acompanha os fatos mencionados na condição de narrador-testemunha, ele inicia seu relato vislumbrando um cenário essencialmente rural, às margens de um umbu, localizado à direita de uma grande coxilha. Ali estava ainda a tapera de Mariano. Algumas quadras adiante, no meio de uma ambientação exuberante, antigamente havia um lagoão tão profundo que se tornou a morada de muitos jacarés. O narrador esclarece que, mesmo em tempos de guri, já conhecera o mencionado lagoão encoberto por capim, muito embora o local ficou afamado pela morte de muitos campeiros que nele afundaram. O condutor da história revela inclusive que já ajudou a recuperar cabeças de gado que passavam e estavam sendo engolidas pela lama escura e pastosa que se criou no fundo do capim. Desse modo, apenas perdizes ou cuscos leves conseguiam transitar sem ferver ou borbulhar a terra. Este lugar acabou ficando muito respeitado pelas pessoas do povoado. Na tapera do Mariano, certa feita, um grupo de carreteiros pousou no rancho. Segundo estes homens, à noite, era possível perceber sobre o antigo lagoão duas almas, uma vestida de branco, sendo que a outra com uma veste mais escura. Igualmente acrescentavam em seus relatos ouvirem duas vozes, uma branda, que soluçava mimosamente, enquanto a outra ralhava em tom agressivo. O manancial ganhou ares de ser assombrado. Um aspecto que agravava esta impressão consiste no fato de que, sobre ele, havia uma linda roseira, supostamente plantada pelas mãos de um defunto. Justamente por isso ninguém se atrevia a retirar-lhe rosas. Além do mais, como a roseira estava bem no centro do manancial, até que alguém chegasse na planta, o lamaceiro seria grande. Em um flash back narrativo, a voz que narra o enredo reporta-se a outros tempos, agora quase remotos, relembrando-se da vivacidade do rancho quando ali residia Mariano. Viera ele morar guiando uma tropilha inteira. Segundo boatos, alguns diziam que migrara em virtude de que necessitava sair de onde viera, sendo, pois, de procedência suspeita. Para além de meras especulações, o certo é que, além dele, vieram duas velhas – uma a sogra, outra a irmã desta -, juntamente com sua filha Maria Altina, alguns campeiros e uma negra chamada Mãe Tanásia. Viviam bem; desfrutavam de tempos de fartura; os campos eram abertos, sem divisões de fronteiras. Um brigadeiro de nome Machado muito se satisfazia com a aproximação do forriel André com relação a menina. Verdadeiramente, Maria Altina apreciava por demais o rapaz, sendo que era extremamente correspondida. Um certo dia, marcou-se um jantar na casa de Mariano. Nesta ocasião, o forriel André deveria ficar hospedado, para a alegria da filha do dono da casa. Depois disso, alguns iniciam os preparativos para o casamento. Enquanto isso, em uma morada não muito distante, um homem chamado Chico Triste, popularmente conhecido por Chicão, estava em fúria. Este vivente desejava em abundância os toques carnais de Maria Altina, embora essa atitude nunca fora igualmente retribuída e nem sequer demonstrada por ela. Ocorre que, quando Chicão soube do casamento de sua adorada menina, tornou-se insuportável: agressivo, ríspido e rude com todos, excetuando-se o pai, o velho Chico. Houve confraternização na casa de Chico Triste. Convidaram a gente do Mariano. Todos foram. Porém, a filha dele, juntamente com sua avó, resolveram ficar em casa até mais tarde, deslocando-se em seguida. Dois cavalos já estavam encilhados para as conduzir. Soube-se a enorme desgraça: Chico, o filho, assaltou o rancho de Mariano, matou a velha e aproximou-se da jovem. Encurralou-a em um canto, abraçando-a com violência. Seus ímpetos carnais, lascivos, sensuais, eram denunciados pela ofegante respiração, que aumentava quando estava em contato com aquela pele graciosa e mimosa. Ela, por sua vez, como não deseja esta aproximação forçada, consegue escapar dos braços daquele estúpido e corre em direção ao cavalo. Quando tenta fugir, ela é perseguida pelo agressor. O segundo parelheiro alcança o outro apenas quando os dois montadores percebem que estão indo em direção ao manancial. Chicão persegue Maria Altina até o momento em que o animal que ela montava cai na lama movediça daquele estranho lugar. A moça não consegue se salvar, mesmo que deixe vestígios de sua passagem pela terra, haja vista que era nítida a rosa que mantinha em seus cabelos. Agora, o corpo densamente profundo; a rosa é o grande sinal de sua passagem terrena. O outro, que relutava para não morrer, encontra-se enroscado, uma vez que suas esporas estão entre as raízes e os pequenos galhos do lagoão extinto. O vizindário todo “quando fala se arrepia”; as pessoas, quando passam a ficar sabendo, não acreditam. O vigário confere todos os procedimentos. Depois de informados, os visitantes da casa do velho Chico apreendem a grandiosidade da situação. Enquanto que as mulheres choram os homens preparam as armas; partem, chegando ao local da tragédia. Menciona-se que deva ser ajudado Chicão a viver, tirando-o da terra movediça. Ele, então, dirige alguns questionamentos ao homem que estava sendo engolido pela terra. Em primeiro lugar, o ciumento rapaz alegou não ser o culpado pela situação. Entretanto, em seguida, assume a culpa pelos seus erros e pelas ações inadequadas. O narrador contextualiza que, decorridos muitos anos, passa pelo local, encontrando-o com ares de abandono e de desleixo. Essa história ainda era guardada na memória histórico-cultural da população, sendo que a presença daquela roseira, no meio do manancial, acentuava a curiosidade em torno do assunto.
Temáticas: as crenças e as superstições dos vilarejos locais; a busca de um amor impossível; violência.
CHASQUE DO IMPERADOR
Os paraguaios cercaram a cidade de Uruguaiana em 65 e, nesse contexto, houve época que apareceu por esses pagos uma figura extremamente importante: o imperador Pedro II. O narrador Blau Nunes comenta que, nesta época, foi o soldado escolhido para servir o imperador em todas as suas necessidades, sendo, pois, o “braço direito” de Pedro II. Era Blau Nunes que encilhava seu cavalo, que ficava de prontidão todas as noites em seu quarto, carregava as armas e os papéis do imperador, dentre outras funções similares. Então, a voz que conduz a contação da história esclarece como foi que tudo começou. Diante dessa anunciação da guerrilha, uma força de homens apresentou ao General Caxias. Este, por sua vez, muito olhou para o pelotão, sem nada falar. Olhava, olhava...Blau Aqueles homens representavam uma gauchada guapa, destemida, aguerrida, galharda, da mais pura confiança, capaz de soltar o facão até mesmo para Cristo, se fosse necessário. Aprumados, as encilhas parelhas, os cascos dos animais bem aparados, tudo no seu devido lugar. Blau Nunes olha distante e percebe que, de uma casa do povoado, saem dois homens, que se dirigem para onde estava o pelotão. Um deles, um ruivo, alto, barbudo, de olhos azuis, que vestia um garbão preto. Sua expressão facial apontava para uma grande autoridade, embora transmitisse brandura e ternura. O outro era o General Caxias. Um tenente, que igualmente acompanhava o andar dos homens, foi incumbido pelo homem ruivo a escolher um soldado, dentre os voluntários que ali se apresentavam. Então, o tenente escolhe o cabo Blau Nunes, reconhecido pela sua lealdade e sua valentia. O cabo, colocando-se mais a frente dos demais, é indagado por uma das autoridades, que lhe pergunta se a figura daquele ruivo lhe era familiar. O narrador, em um gesto afirmativo, responde sim, haja vista que no ano de 45, no Ponche Verde, fora o guardião de um papel muito importante que deveria chegar até as mãos do imperador. Blau Nunes comenta acerca das dificuldades em driblar os baianos, mas, por fim, consegue realizar a missão. Como reconhecimento, naquela oportunidade, havia ganho do imperador um cavalo picaço, muito lindo, grande e garboso. Logo, aquela autoridade, Pedro II, já lhe era familiar. Os comandantes dizem a Blau Nunes que, desta vez, foi escolhido para uma missão perigosa. O cabo, munido de um imenso sentimento de pertença ao grupo dos farrapos, lisonjeando-se em poder servir aqueles homens, coloca-se de prontidão para os auxiliar. Em seguida, ele retorna ao seu posto, dentre os demais soldados. Todos voltam ao exercício de suas funções corriqueiras. À tardinha, os colegas, outros soldados, pediram-lhe o que havia ocorrido. Blau Nunes contextualiza-os desviando a conversa, consciente de que não seria prudente revelar publicamente tais informações. Os dias passam e com eles aumenta, aos poucos, a convivência do imperador com os gaúchos sulinos que ali estavam para servir à pátria. Um deles, preparando um palheiro, oferece a Pedro II. Este diz ao outro que esses palheiros eram muito fortes. Seu interlocutor responde-lhe lastimando, uma vez que o imperador, por certo, não sabia o que era bom. Frente a essa atitude acolhedora, a autoridade resolve provar do cigarro preparado pelo outro, deixando uma nuvem de fumaça no ar. Todos os gaúchos demonstram-se muito solidários para com Pedro II, oferecendo-se além da conta. Em certa oportunidade, um grupo de homens montados a cavalo andejava por um ambiente campestre, onde pararam perto de um ranchito. Eram os farrapos. Eis que, então, aproximou-se uma mulher, com ares ingênuos e hospitaleira. Ela pergunta ao grande grupo quem deles era o imperador. O ruivo identifica-se. A mulher faz a oferta de um fiambre, uma trouxa de pano repleta de alimentos para um pequeno café. Em seus discursos, a pobre abençoa os homens do sul, desejando sucesso na guerra. Diz ela que alguns filhos e netos, além de sobrinhos, haviam se juntado aos demais para servir nesta missão. Em seguida, aquela alma bondosa deseja saber se ali também se encontrava o general Caxias. Este responde afirmativamente. Logo em seguida, a mulher - que se chamava mãe Tuca - conta que seu marido fora salvo por ele, em uma batalha. Para o pai de seus filhos, o general Caxias era venerado ao extremo. Gostaria o homem de servir novamente. Entretanto, falecera de um inchume. Por conta disso, em respeito ao pai e muito mais pela consideração que ele prestava a Caxias, os filhos reuniram-se entre si, com primos, com o vizindário e, juntos, foram todos apresentar-se para o serviço. Outra ocasião houve em que os farrapos foram recebidos na casa de um vivente muito estranho, que somente servia para as autoridades café com doces: doces de manhã, de tarde e de noite. Pedro II, que em todas as refeições não recusou para não fazer desfeita, quando servido pela segunda vez, no café da manhã seguinte, pergunta ao dono da casa se, por acaso, não teria ele algum feijão ou ponta de carne. O outro admira-se com a colocação, esclarecendo que, segundos comentários, as grandes autoridades somente comiam doces e outras finúrias. O dono do recinto concorda com o imperador, dizendo que nem mesmo ele estava aguentando mais aqueles insuportáveis doces, sugerindo que fossem a um bom churrasco.
Temáticas: os contratempos no contexto da Guerra dos Farrapos; a hospitalidade do povo gaúcho;os usos e costumes sulinos.
MELANCIA COCO VERDE
O narrador e outro campeiro encontram-se à beira de uma estrada encilhando dois cavalos. O primeiro deles avista uma silhueta conhecida, a figura de um homem que, quando observado de perto, reconhecia-se um índio muito corajoso e fiel chamado Reduzo. O narrador, aconselhando seu amigo a arrumar os aperos, que estavam mal colocados no pingo, dirige-se ao homem que pelas proximidades passava. Decorridos alguns instantes, o campeiro retorna, pedindo desculpas ao outro pela demora, uma demora justificada em função da interessante e curiosa trajetória de vida deste campeiraço O narrador, diante daquela aparição, inicia a contar tudo o que conhece a respeito dele. De acordo com os seus saberes, Reduzo era um índio muito leal, habilidoso nas lidas campeiras, nascido e criado entre os Costas, na estância do Ibicuí. Tempos depois, tornou-se ele o posteiro dos Costas. A inclusão deste homem na família mencionada, conforme os comentários do narrador, deu-se desde os tempos do velho Costa Iunanco, um alfares dos dragões do Rio Pardo. Este conseguiu apossar-se de quatro sesmarias, local onde Reduzo cresceu, brincou e desenvolvia todos os afazeres diários na companhia das crianças da casa, os Costas. As brincadeiras eram socializadas, corriam juntos, campeiravam sempre todos. Mais tarde, quando crescidos, aprenderam domar, a castrar, a carnear. Reduzo sempre inserido no meio dos demais. Um dos rapazes, o Costinha, foi o primeiro a colocar-se de prontidão quando rebentou a revolta dos farrapos. Queria ele servir e, para tanto, solicita ao pai que ele deixe Reduzo acompanhá-lo nesta empreitada. Os dois encaminham-se para o serviço. Torna-se importante destacar que Costinha morria de amores por Sia Talapa, a filha de um fazendeiro que possuía propriedade nas mediações locais. Todavia, o pai, de nome Severo, não concordava com essa aproximação. Houve oportunidades em que Costinha foi até a casa da amável menina, fazendo gracejos para ela. O namoro nunca foi bem aceito pelo pai da moça, que antes queria ver a filha casada com um primo, um ilhéu, dono de um bolicho em ponto grande na Vila onde moravam. Sia Talapa, por sua vez, não correspondia a essas vontades do pai. Severo recebia o sobrinho em casa. Nestes dias, as refeições eram todas preparadas a fim de atender as preferências do hóspede, tendo em vista que ele não comia churrasco. Em outros dias, comum era o tradicional churrasco, aquela carne vertendo sangue na brasa. Além disso, nas ocasiões em que o sobrinho pousava na casa de Severo, a cama era arrumada com os lençóis mais finos que havia. A aproximação entre Costinha e Sia Talapa teve de ser interrompida porque o rapaz precisou juntar-se aos demais homens que iriam servir os farrapos. Na despedida, à noite, um breve beijo iluminou seus corações. Eles combinam entre si uma maneira de trocaram recados, cartas ou demais formas de comunicação sem serem percebidos pelos mexeriqueiros. Sia Talapa recebeu o apelido de Melancia, e ele, Costinha, de Coco Verde. Para todos os efeitos, ninguém saberia desses pseudônimos. Apenas Reduzo presenciou esta cena, na calada da noite. Alguns meses se passaram. Severo, quando soube que os guerrilheiros estavam absolutamente envolvidos com suas funções – sendo que não seria possível algum desertor retornar – resolve encaminhar os preparativos para o casamento da filha, aproveitando a ausência de Costinha. A família envolvida, os parentes próximos, os vizinhos e amigos, todos vivenciavam um clima de festividade. Apenas mantinha-se enlutada Sia Talapa, juntamente com uma mulher que havia sido sua ama de leite. Esta mulher compreendia sua dor interior. Não havia como desfazer esta tragédia. A notícia do casório espalhou-se pelo povoado. Um homem, carregador de mercadorias e levador de recados para os farrapos, esteve andejante por aquelas paragens, às vésperas do casamento. Ele também achegou-se no bolicho do sobrinho de Severo. Depois que soube da informação, tornada pública, rumou para o acampamento dos farrapos, comentando com Costinha o que ouviu no povoado. Este, então, tomado de uma imensa fúria, esbravejando com Reduzo, estava disposto a desertar do acampamento a fim de chegar na casa de Severo antes que o casamento se cumprisse. O guerreiro dos Costas ordenou que seu fiel amigo encilhasse os cavalos. O comandante solicita a presença de Costinha. Ao longe, se avistava a desistência do exército inimigo, embora esta autoridade direcione uma grande função, uma missão a Costinha. Agora, dividido entre esses dois compromissos, pensa ele que seria imoral abandonar seus afazeres militares. Então, entre ferro e fogo, combatendo com os castelhanos, o amado de Sia Talapa encarrega Reduzo de retornar a casa de Severo, mantendo discrição para não ser notado entre as pessoas da casa, solicitando apenas que ele diga em algum momento para que a moça escute que o Coco verde manda notícias a melancia. Com vistas a diminuir a estranheza de seu interlocutor, complementa ele dizendo que certamente a jovem o entenderia. Depois de muito cavalgar, por entre matos, juncos e estradas, passando por uma série de dificuldades, por fim, Reduzo chega na propriedade de Severo. Quando é observado, logo o dono da casa questiona-o, indagando-o acerca da sua participação entre os homens farrapos. O amigo de Costinha, então, desvia-se deste interrogatório afirmando que apenas acompanhou alguns animais até certo ponto da estrada, voltando em seguida. O patrão aconselha-o a descansar, tomar um bom vinho e aproveitar que todos estavam em clima de festa, pois era o casamento de sua filha. À noite, os músicos estavam animados. Alguns homens ensaiavam alguns versos para homenagear o momento. O capataz da casa assim procede. Reduzo, quando solicitado, enuncia uma quadra, quatro versos nos quais insere um trocadilho mencionando Melancia e Coco Verde. Sia Talapa, já na companhia de seu noivo, desfaz-se em sorrisos. Enquanto os convidados sorriem e festejam os versos – obviamente sem entender o sentido que neles havia - a noiva empalidece de felicidade. Na segunda rodada de versos, o fiel companheiro de Costinha dá a entender que, vindo da guerra, certamente seu amado estava na terra. A noiva põe-se aos gritos. As mulheres tentam acudi-la. O padre inicia suas rezas. Um tumulto grande forma-se na casa. O noivo atribui o desespero da jovem às armas que acompanham as vestes de Reduzo. No meio das conversas, um homem comenta o despropósito dessa colocação. Ocorre que se arma uma verdadeira confusão, dentro da qual o sobrinho de Severo é obrigado a debandar porque percebe o perigo. Dois dias depois, aparece o Costinha, a trote manso, e pede a mão da amada em casamento. O pai vê-se obrigado a contar o que aconteceu, dias antes, esclarecendo que a filha inclusive estava prometida a outro homem. O casamento, segundo as palavras de Severo, deveria ter se cumprido, não fosse uma desordem criada no ambiente. O Costinha não estava interessado nesse assunto: apenas nos lindos olhos de Sia Talapa. Os apaixonados casam-se. Reduzo, para não contrariar e afrontar o dono da casa, teve de andar alguns tempos escondido, embora fosse muito bem recompensado por Costinha, que lhe atribuiu cargos de verdadeira confiança, como, por exemplo, capataz de sua morada.
Temáticas: o casamento arranjado pelos pais por interesses financeiros e/ou outras intenções; os imprevistos da Guerra dos Farrapos, que interrompem um caso de extremo amor; a fidelidade entre dois amigos; a recompensa; o amor superando os obstáculos mais inesperados da vida.